12 de Dezembro de 2009
7 de Dezembro de 2009
Partida
Fim de semana das viagens de autocarro entre as minhas duas cidades minhas duas casas minhas duas mães. Talvez me sinta mais feliz que nunca quando viajo por ser assim desenraizada, assim de um meio qualquer, de um entre sítios vários, casas, mães, raízes de fora. Hoje decidi prolongar a estadia e sair mais tarde. Pude passar mais tempo com a família e a lareira e os confortos de não fazer nada e ter tudo à mão. É já noite quando parto. Sento-me no autocarro. Chove bastante lá fora. Encosto a cabeça para trás e escolho a música que vou ouvir. O autocarro arranca e eu carrego no play. Imediatamente as imagens e as sensações se me atropelam garganta acima. E sou eu cheia de cores e dores a ir de um lado para outro e com tanta coisa cá dentro e as coisas todas precisavam de um sítio para estar mas eu não tenho esse sítio porque dentro de mim também há sempre comboios a partir e aviões a descolar e o clima é instável por isso não é fácil eles regressarem porque há sempre cheias e nevões e tempestades de areia e vulcões e as coisas nunca regressam ao mesmo sítio porque a lava e as avalanches são assim mesmo e tudo muda de sítio, tudo muda de sítio, nunca nada nunca mais outra vez igual me deixa descansar e ganhar raízes. E ainda por cima agora vai ser Natal outra vez. Volta a ser outra vez obrigatório as pessoas sentirem coisas boas, estarem felizes, em paz e harmonia. Volto a estar sempre triste por saber que não sou feliz, por saber que não consigo ser como as outras pessoas nessas coisas simples e banais como gostar de conduzir e de bebés e de caracóis e do Natal e da passagem de ano e de estar feliz porque é festa e é tempo de alegria. E gostava de ter coragem para ser o que devia ser mas para isso é preciso cortar logo as primeiras raízes mal elas comecem a nascer e eu sempre tive medo disso, da dor de as cortar logo em rebento e de tentar ir ganhar outras para outro sítio qualquer ou de tentar viver sem elas para sempre como algumas pessoas vivem sem um rim ou sem uma perna. Ainda assim, dizem que essas pessoas às vezes têm dores nos órgãos e nos membros que perderam. Deve ser o cérebro delas que não os quer perder. O meu se calhar não quer perder as raízes e por isso doem-me mesmo aquelas que nem chego a ter e as que eu já não tenho porque tive de as cortar para me nascerem asas. Sobre as asas é que eu percebo ainda menos. As pessoas voam muito muito muito mas depois caem mais que os aviões e toda a gente sabe que neste tipo de desastres há sempre muitas perdas...
29 de Novembro de 2009
26 de Novembro de 2009
Fermento
Fiz uma pequena grande viagem de três dias ao redor de momentos em que me encontrei como nunca me lembro de me ter encontrado. Demoro agora mais tempo a perceber coisas que sinto. Sei que o poder de me abrir ao mundo é meu mas não me sinto já dona do meu destino por saber que me posso espalhar por aí como a chuva num pequeno Inverno viajante. Alguém me dá a mão e me guia os passos trémulos até ao cimo das nuvens. Se não fosse essa mão e essa voz, nunca teria coragem de procurar coisas tão belas e tão grandes e que coubessem assim numa mãozinha fechada de horas. Sei-lhe agora melhor o olhar triste, adivinho-lhe os espinhos na alma, as dúvidas, as horas difíceis. Dentro do meu peito, volto a agradecer-lhe. Desta vez com muito mais certezas acerca de muito mais coisas e, sobretudo, de mim. Com a cabeça encostada à janela de um avião, olho para baixo e vejo montanhas cobertas de neve, campos verdes, árvores, lagos, algumas nuvens. De repente, percebo que já não tenho medo de me ir embora. Que a viagem maior de todas vale a pena por haver montanhas cobertas de neve e campos e árvores e lagos. Nada disto pode estar aqui por acaso. Eu não posso estar aqui por acaso. As palavras que aprendo e que me guiam não posso tê-las ouvido por acaso. Aprendo que a verdadeira felicidade não está no que tiro dos outros mas de mim própria. Sinto-me a crescer por dentro como a massa do pão que a minha avó benzia em cruz antes de por a levedar.
19 de Novembro de 2009
Wovenhand em Salzburgo!!!!!!!
Nem acredito que estou quase a ver este senhor ao vivo e a cores outra vez.
17 de Novembro de 2009
9 de Novembro de 2009
Cântico Negro
Tudo à minha volta padece de males de amor, tudo se ressente de discussões, desilusões, separações, saudades, ausências... Reciclamos. Revivemos. Reinventamos paixões. Sempre à espera de encontrar uma coisa qualquer, a tal da metade cujo sonho nos venderam ou, na falta dela, alguém que seja o mais parecido possível (pode ser que ninguém note a diferença). E para aqui vamos fingindo que somos modernos e independentes, que podemos ter relações umas a seguir às outras e seguir em frente sem sofrer nenhum arranhão. Que podemos continuar todos a ser amigos e a beber copos à esquina como se os sentimentos fossem e viessem ao ritmo das estações do ano, repetidos, idênticos, sem deixar marcas para o ano seguinte. Ironicamente, até as estações do ano agora deitam abaixo os castelos, porque já não há nuvens, só calor e secura fora de época. As sementes não germinam debaixo da terra. Secam e perdem-se para sempre. E eu vou-me apaixonando por coisas, figuras, músicas, filmes, actores e actrizes, músicos e cantores, pessoas que invento, retalhos deste e daquele e de mim para me manter viva e não enlouquecer. Nas histórias que me contavam, as mulheres casavam virgens e era para toda a vida. O almoço e o jantar estavam na mesa a horas certas, a roupa cheirava sempre bem e suportavam-se coisas com um estoicismo quase genético, sem questionar o sentido daquilo tudo. Cresci assim, rodeada de coisas antigas, no meio de um caos sólido e austero contra o qual comecei a revoltar-me muito cedo. Tive sempre vontade de ser livre e independente, acima de qualquer outra coisa. E sou. Livre. Independente. É muito fácil saber-se o que não se quer, difícil é o resto.
21 de Outubro de 2009
11 de Outubro de 2009
8 de Outubro de 2009
Lugar lugares
"Era uma vez um lugar com um pequeno inferno e um pequeno paraíso, e as pessoas andavam de um lado para outro, e encontravam-nos, a eles, ao inferno e ao paraíso, e tomavam-nos como seus, e eles eram seus de verdade. As pessoas eram pequenas, mas faziam muito ruído. E diziam: é o meu inferno, é o meu paraíso. E não devemos malquerer às mitologias assim, porque são das pessoas, e neste assunto de pessoas, amá-las é que é bom. E então a gente ama as mitologias delas. À parte isso o lugar era execrável. As pessoas chiavam como ratos, e pegavam nas coisas e largavam-nas, e pegavam umas nas outras e largavam-se. Diziam: boa tarde, boa noite. E agarravam-se, e iam para a cama umas com as outras, e acordavam. Às vezes acordavam no meio da noite e agarravam-se freneticamente. Tenho medo — diziam. E depois amavam-se depressa e lavavam-se, e diziam: boa noite, boa noite. Isto era uma parte da vida delas, e era uma das regiões (comovedoras) da sua humanidade, e o que é humano é terrível e possui uma espécie de palpitante e ambígua beleza. E então a gente ama isto, porque a gente é humana, e amar é que é bom, e compreender, claro, etc. E no tal lugar, de manhã, as pessoas acordavam. Bom dia, bom dia. E desatavam a correr. É o meu inferno, o meu paraíso, vai ser bom, vai ser horrível, está a crescer, faz-se homem. E a gente então comove-se, e apoia, e ama. Está mais gordo, mais magro. E o lugar começa a ser cada vez mais um lugar, com as casas de várias cores, as árvores, e as leis, e a política. Porque é preciso mudar o inferno, cheira mal, cortaram a água, as pessoas ganham pouco — e que fizeram da dignidade humana? As reivindicações são legítimas. Não queremos este inferno. Dêem-nos um pequeno paraíso humano. Bom dia, como está? Mal, obrigado. Pois eu ontem estive a falar com ela, e ela disse: sou uma mulher honesta. E eu então fui para o emprego e trabalhei, e agora tenho algum dinheiro, e vou alugar uma casa decente, e o nosso filho há-de ser alguém na vida. E então a gente ama, porque isto é a verdadeira vida, palpita bestialmente ali, isto é que é a realidade, e todos juntos, e abaixo a exploração do homem pelo homem. E era intolerável. Ouvimos dizer que, numa delas, o pequeno inferno começou a aumentar por dentro, e ela pôs-se silenciosa e passava os dias a olhar para as flores, até que elas secavam, e ficava somente a jarra com os caules secos e a água podre. Mas o silêncio tornava-se tão impenetrável que os gritos dos outros, e a solícita ternura, e a piedade em pânico — batiam ali e resvalavam. E então a beleza florescia naquele rosto, uma beleza fria e quieta, e o rosto tinha uma luz especial que vinha de dentro como a luz do deserto, e aquilo não era humano — diziam as pessoas. Temos medo. E o ruído delas caminhava para trás, e as casas amorteciam-se ao pé dos jardins, mas é preciso continuar a viver. E havia o progresso. Eu tenho aqui, meus senhores, uma revolução. Desejam examinar? Por este lado, se fazem favor. Aí à direita. Muito bem. Não é uma boa revolução? Bem, compreende... Claro, é uma belíssima revolução. E é barata? Uma revolução barata?! Não, senhores, esta é uma verdadeira revolução. Algumas vidas, alguns sacrifícios, alguns anos, algumas. Um bocado cara. Mas de boa qualidade, isso. E o rosto que se perdera, que possivelmente caíra do corpo e rolara debaixo das mesas, o rosto? Lembras-te? Como foi que ficou assim? Não sei: tinha uma luz. Sim, lembro-me: parecia uma flor que apodrecesse friamente. Era terrível. Boa noite. E ela trazia um vestido de seda branca, e nesse dia fazia dezoito anos, e estava queimada pelo sol, e era do signo da Balança, e tomou os comprimidos todos, e acabou-se. Não compreendo. E julgas tu que eu compreendo? Quem pode compreender? Ela era a própria força, aquela irradiante virtude da alegria, aquele fulgor radical..., compreendes? Sim, sim. Tinha um vestido de seda, e era nova, e então acabou-se. Para diante, para diante. Não se deve parar. Enforquem-nos, a esses malditos banqueiros. Este vai ter trinta e cinco andares, será o mais alto da cidade. Por pouco tempo, julgo eu. Como? Sim, vão construir um com trinta e seis, ali à frente. Remodelemos o ensino. Cantemos aquela canção que fala da flor da tília. Bebamos um pouco. E o outro, o outro, o que viu Deus quando ia para o emprego?! Isto, imaginem, às 8 h. e 45 m. de uma tranquila manhã de março. Uma partida. Uma partida de Deus? Boa piada. Não amará Deus essas maliciosas surpresas? Um pequeno Deus folgazão?! Ele ficou doido. Começou a gritar e a fugir. Que Deus vinha atrás dele. E depois? Bem, lá construíram o prédio com trinta e seis andares, e o outro ficou em segundo lugar. Isto é o trabalho do homem: pedra sobre pedra. É belo. Vamos amar isto? Vamos, é humano, é do homem. E as crianças cresceram todas, e andavam de um lado para outro, e iam fazendo pela vida — como elas próprias diziam. E então as condições sociais? Sim, melhoraram bastante. Mas uma delas começou a beber, e depois o coração estoirou, e ficou apenas para os outros uma memória incómoda. Parece que sim, que tinha demasiada imaginação, e levaram-na ao médico e ele disse: aguente-se, e ela não se aguentou. Era uma criança. Não, não, nessa altura já tinha crescido, bebia pelo menos um litro de brandy por dia. Nada mau, para uma antiga criança. A verdade é que era uma criança, e não se aguentou quando o médico disse: aguente-se. E as ruas são tão tristes. Precisam de mais luz. Mas nesta, por exemplo, já puseram mais luz, e mesmo assim é triste. É até mais triste que as outras. Estou tão triste. Vamos para férias, para o pequeno paraíso. Contaram-me que ele tinha uma alegria tão grande que não podia agarrar num copo: quebrava-o com a força dos dedos, com a grande força da sua alegria. Era uma criatura excepcional. Depois foi-se embora, e até já desconfiavam dele, e embarcou, e talvez não houvesse lugar na terra para ele. E onde está? Mas era uma alegria bárbara, uma vocação terrível. Partiu. E agora chove, e vamos para casa, e tomamos chá, e comemos aqueles bolos de que tu gostas tanto. E depois, e depois? Ele era belo e tremendo, com aquela sua alegria, e não tinha medo, e só a vibração interior da sua alegria fazia com que os copos se quebrassem entre os dedos. Foi-se embora."
Herberto Helder, Os Passos Em Volta
Herberto Helder, Os Passos Em Volta
3 de Outubro de 2009
Wouldn't we all, someday?
“I used to be a mailboy in the Justice Department in Washington”, he said. “I felt I was becoming transparent. I had the feeling that after I ate dinner, people could see the food in my stomach. That’s just one of the things that was happening to me. I began to fear that chunks of government buildings would dislodge and fall on the top of me. But I think the worst thing of all was when I was walking on a crowded street. You know how people jockey back and forth, the fast walkers trying to overtake the slow walkers. There’s always a lot of shoving and the fast walkers are always stepping on the slow ones and knocking their shoes off. I was a fast walker. I was always hurrying even when I was just going for an aimless stroll, and I used to get annoyed when slow walkers got in my way. One day I was trying to get around an old man who kept drifting toward the curb and blocking my path and suddenly I found myself shouting at him in my own head, shouting inwardly and silently: LOOK OUT! LOOK OUT! I never actually spoke the words. I just shouted them mentally. I began to do that all the time. LOOK OUT, I would say to people. MOVE! MOVE! And I could see the words in my head in big block letters like a cartoon. Then one day a woman slowed down suddenly and I almost crashed into her. I found myself shouting a new word in my head: DIE! If I had said it aloud she probably would have died. It was really a hideous inner scream and I could see the word in my head in red letters with a big exclamation point. I began to realize I was abnormal. I was a person who walked along the street mentally shouting DIE at innocent people. After several months of this I tried to make a conscious effort to stop shouting the word. But it was too late. It just popped into my head automatically. DIE! DIE! I’ll tell you the kind of person I was. I was the kind of person who’s always falling in love with the wives of his best friends.”
“Have you stopped shouting DIE?” Sullivan said.
“I stopped shouting it the day I quit my job and I haven’t shouted it since. I haven’t shouted anything since[…]”.
Don DeLillo, Americana
16 de Setembro de 2009
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